Endividamento, juros altos e El Niño podem gerar recessão em 2027
Os dados recentes da economia do País dão indícios claros dessa percepção. O Produto Interno Bruto (PIB) subiu 1,1% no primeiro trimestre e 0,5% no segundo, sustentado por setores não cíclicos — Agronegócio (alta de 6,8% em relação ao segundo trimestre de 2025) e a Indústria Extrativa (elevação de 12%). Assim, a projeção para o resultado de 2026 já caiu de 2% para 1,7%, no boletim Focus, do Banco Central (BC).
Segundo o conselho, trata-se do sinal inequívoco de um esgotamento do modelo de crescimento baseado no endividamento. A renda média subiu 4%, enquanto a massa real de salários, da mesma forma, cresceu 4,9%, impulsionada pelos programas previdenciários (3,2%), pelo Benefício de Prestação Continuada (BPC) (3,8%) e pelo abono do seguro-desemprego (9,7%). Esses recursos, porém, estão sendo absorvidos por despesas financeiras e por fenômenos como as apostas online, que acabaram de ser proibidas.
Uma sondagem da FecomercioSP, realizada há alguns meses, mostrou que 35% dos paulistanos apostavam nessas plataformas com o objetivo de aumentar a renda doméstica, um salto de 10 pontos porcentuais (p.p.) em comparação com o mesmo estudo que a Entidade fez em 2024. Foi assim que o comprometimento da renda com dívidas chegou a 28,9%. O endividamento em relação à renda chegou à casa dos 49%. Hoje, o Brasil tem 83,5 milhões de endividados, segundo os dados da Serasa.
Mas se o governo tem estimulado o consumo, não o faz para o investimento: os bens de capital, não à toa, recuaram 5%, e bens duráveis cresceram 1,9%, puxados pelos automóveis.
O desempenho setorial também confirma o quadro. No acumulado de 12 meses até julho, o setor de Serviços desacelerou de 3% para 2,4%, enquanto o Comércio ficou estável em torno de 1,5%, ao passo que a Indústria cresceu 0,5%, com o peso da extração — já que a indústria de transformação recuou 0,5%.
O desafio, aponta o conselho, é que o fenômeno El Niño deverá pressionar os preços e manter os juros reais elevados, o que reduzirá esse impulso fiscal. Como o Agronegócio, que sustentou o crescimento até agora, recuará (0,2%, dizem as projeções), não é possível afastar a hipótese de recessão.